Cinco...Seis...Sete...Oito
- 27 de dez. de 2015
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Era uma sexta-feira atípica. Uma manhã com céu cinza e denso como chumbo contrastava com o verão que se iniciou dias antes. Poderia ser um típico dia de outono, sem as folhas secas e árvores carecas e ásperas, como as dos filmes de terror. Uma fraca brisa, que parecia marítima, me guiava durante uma caminhada. Estava andando sem rumo, apenas com a finalidade de me exercitar nas férias, quando algo quebrou a minha vã monotonia. Uma música que vinha do velho teatro, que eu, há muito, achava que estava fechado - afinal não se via nada ali além de paredes descascadas e muita poeira, isso sem contar o cheiro de mofo.
Foi aí que a minha curiosidade jornalística aflorou como uma flor de maio fora de época. Entrei no teatro. Senti aquele cheiro de velharia que quase me fez dar meia volta. Alimentei a minha curiosidade e embarquei em minha missão. Sente-me na última fileira, se é que aquele bando de trapos de veludo vermelho sangue poderia ser assim chamado. Olhei para os lados, para ter certeza que ninguém notara minha presença e voltei a minha atenção para o palco que, para a minha surpresa, estava em ótimo estado.
No palco estava uma menina. Baixa, magrinha, com os cabelos, que pareciam castanhos, presos em um coque e, em seus pequenos e ligeiros pés, sapatilhas de ponta cor de rosa, tão sujas e velhas quanto o teatro que a cercava. Além dela não havia mais ninguém. Eu era a sua única plateia.
Ela dançava a música que levou-me a descobri-la. Não reconheci o autor, mas ela era triste, repleta de solos de violino, lentos e angustiantes. A cena toda era difícil de ver. A pobre menina girava, saltava, corria, se contorcia no ritmo dessa estranha música sob um teto em ruínas. Tive muita vontade de me levantar e sair correndo dali, afinal a dança, para mim, sempre foi motivo de alegrias.
Contudo algo me impedia. Eu queria entender o que estava acontecendo. Assim esperei que aquele solo da tristeza acabasse e me dirigi à menina. Quando estava a poucos passos do palco, fui descoberta. A bailarina olhou para mim, e pude perceber que chorava, e estava com uma expressão tão abatida quando a musica que dançara há poucos minutos.
Apresentei-me a ela e contei o que havia me levado até lá. A jovem Mariana, um pouco confusa e até surpresa, acabou com minha curiosidade. Ela tinha acabado de ser aprovada em um teste que a levaria para Nova York, mais precisamente para a escola americana de ballet e que veio ao teatro para se despedir do local onde dançou pela primeira vez.
Fiquei extremamente surpresa. Esperava que ela me contasse a história mais triste do mundo, uma verdadeira tragédia grega. Porém, eu estava certa, a dança é algo feliz, alegre, um arco-íris em meio à tempestade. Passados mais alguns minutos, Mariana se despediu de mim, foi para casa contar a novidade à família.
Eu fiquei. Subi no palco. Tirei os meu tênis e comecei a cantarolar uma música em minha mente. Assim que a música me tomou completamente, comecei a dançar naquele velho teatro, onde o cheiro de mofo não me incomodava mais, nem as ruínas do teatro faziam diferença. Nessa hora só havia felicidade e paz dentro de mim e o meu dia vazio tornou-se o mais belo jardim de primavera.





























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